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A Economia da Oralidade foi o resultado de uma paixão pela voz humana revelada aos quatro anos de idade, o que me levou a uma consequente dedicação para estuda-la profundamente. Além de me deleitar com as histórias contadas pela minha avó paterna, Zaquie Cury, me interessava muito em ouvir e até participar de conversas de adultos, sem deixar de lado as brincadeiras com as crianças de minha faixa etária e de ouvir por horas a programação das emissoras de rádio e de televisão. 


Ao iniciar minha carreira no rádio em 1972 na condição de rádio escuta, profissional que acompanha os demais jogos da rodada para subsidiar o plantão esportivo transmitir as informações durante a jornada principal da emissora, oportunidade que nos propiciou começar a pesquisa sobre os principais locutores da época que resultou no estudo sobre a oralidade aplicada no rádio inicialmente e depois também na televisão. 


Os estudos passaram por diversas fases de desenvolvimento, gerando uma cresce entusiasmo pelo tema que, dando um salto na narrativa, culminaram no ano de 2010 com a formulação do Voice Design ®, o design da vocalização para fins comunicativos, portanto, o design da oralidade que por sua vez nos levou na condição de economista e de comunicador social ? habilitação em jornalismo a constituir a economia da oralidade.


Convido você leitor a realizar também da sua linha do tempo, a sua jornada ao longo da sua história, para rememorar sua trajetória de vida, elencando os seus principais personagens que ajudaram a construir sua personalidade, com todos as virtudes e vicissitudes, incluindo os cúmplices da caminhada existencial.


Nasci no ano bissexto de 1956, em Curitiba, no dia 10 de abril, na Rua Prudente de Moraes 405, esquina com a Rua Padre Agostinho, às 19 horas e 15 minutos, durante a transmissão da ?A voz do Brasil?.


Foi o início do mandato presidencialista de Juscelino Kubitschek (21º presidente), considerado um dos maiores mandatários do país. Elvis Presley estava lançando no single Heartbreak hotel, seu primeiro sucesso. Mel Gibson havia nascido um pouco antes de mim, em 03 de fevereiro de 1956. O Pelé havia iniciado sua carreira no Santos Futebol Clube aos 16 anos. John Austin havia formulado a teoria do ato de fala.


Vivíamos a ?Era de Ouro? do rádio brasileiro. Naquele tempo era o rádio e por vezes a radiola que ocupavam lugares de destaques nas salas das casas brasileiras, e aos pouco os aparelhos de TVs também ganhavam seu espaço, sem que o rádio deixasse de manter sua relevância e a sua capacidade de influir no comportamento da sociedade, ditando os modos e as modas de cada época.


As grandes vozes tomavam conta da paisagem sonora, sejam os cantores, humoristas, declamadores de poesia, os narradores esportivos, os apresentadores de programas de rádio, incluindo programas de auditório. 


Passávamos horas ouvindo rádio e isso certamente causou um impacto definitivo na minha vida pessoal e profissional e claro da sociedade da época, transmitindo ideologias, estimulando a capacidade de consumo através dos chamados reclames, da publicidade sonora associada visualmente as publicações impressas.


As pessoas consumiam as programações radiofônicas alternando sua audiência através dos discos de vinil em 33, 45 ou 78 rotações.


Toda esta sonoridade causava um significativo impacto nos ouvintes, ativando seu imaginário, sejam pelas ondas hertzianas emitidas pelo rádio, ou pelos discos em acetato, tocados pelas proeminentes radiolas, empreendendo ?viagens sônicas? aos mais diversos e variados lugares do nosso imaginário.


As ondas sonoras me arrebataram para um mundo de imagens construídas pela vibração física de natureza mecânica, condição da existência do som  

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A televisão estava bem no começo, dando seus primeiros passos, modelada e forjada pela estrutura radiofônica. O rádio em algumas regiões brasileiras como as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife, profissionalizou-se qualitativamente e quantitativamente, alcançando resultado econômico expressivos. A publicidade sustentava o veículo com um broadcasting de profissionais, com rádio atores, cantores, artistas, locutores, repórteres, produtores.


No ano que nasci, já haviam pouco mais de 140 mil aparelhos de TV no Brasil. Chacrinha fazia sua estreia na TV Tupi com o programa ?Rancho Alegre?. O teatro contando com grandes nomes que se consagraram, como Tônia Carreira e o cinema ditava a moda e o comportamento de consumo das pessoas em geral.


Neste contexto foi que surgiu minha paixão pela voz humana. Ela se manifestou na primeira infância, principalmente estimulada pelas programações radiofônicas nos anos 60 e pelo privilegiado de ouvir as histórias contadas pela minha avó paterna, Zaquie Cury, especialmente pela coleção nominada ?Tesouros da Juventude?. Como me deliciava ouvir os contos como ?Os Três Porquinhos?, ?Chapeuzinho Vermelho?. ?João e Maria?, entre tantas outras histórias inesquecíveis o imemoráveis.


Era muito frequente ficar ouvindo minha mãe, Neusa Gil Cury e da minha vó, Zaquie com suas amigas. Elas passavam longas tarde conversando sobre assuntos diversos, normalmente tomado um café árabe que era feito sem coar, comendo belicosos bolos recheados com creme e cobertos com coco ralado, lembro das bolachas de mantegal, além de outros quitutes muito gostosos, como podemos imaginar.


E eu sempre participava com as minhas histórias que apesar de criança, já tinha meu modesto repertório. Prestava muita atenção não necessariamente sobre o que elas falavam, por se tratar de assuntos de mulheres adultas, mas como elas contavam as suas histórias, experienciais, vivências. Invariavelmente elas se emocionavam, indo as lágrimas, em outros momentos riam sonoramente, dramatizando os acontecimentos, contados aos moldes das grandes radionovelas da época.

Me lembro de minha mãe dizer que eu já era falante antes mesmo de andar. Eu mesmo não me lembro disso pela pouca idade. Recordo-me quanto tinha meus quatros anos de idade, numa daquelas reuniões da minha avó com suas amigas, uma delas, Dona Zahi, de origem árabes, fez um comentário ?Este menino conversa muito bem e como ele é inteligente?.


Apesar da singeleza da afirmação desta amiga de vovó, e extraindo algum exageros, a observação marcou e reforçou esta característica da minha personalidade e me estimulou a desenvolvê-la, passei a prestar ais a atenção nos detalhes das conversas que ouvia, me percebendo assim apaixonado pela voz humana.


A partir deste momento, passei a investir na minha oralidade.


E você leitor? Sugiro que dê uma breve pausa pra trazer a lembrança algo que marcou sua primeira infância. Com certeza sempre há momento significativos nestes primeiros anos de vida. Você pode ter recebi um elogio sobre alguma característica da sua personalidade, com repercussão da sua vida pessoal e profissional. Talvez você não tenha se dado conta, de ter despertado um interesse por algo naqueles anos e que pode readquirir significado hoje?


Este exercício será importante para a proposta da Economia da Oralidade.

Além das conversas femininas, também apreciava estar nas rodas masculinas, dos mais velhos. Costumeiramente fica na sala de visitas de meu avô paterna, Jorge Cury, o qual herdei o nome, ouvindo as conversas entre ele e meu pai, Getúlio, meus tios, irmãos de minha avó, acompanhado e seus amigos. Eles falavam sobre diversos assuntos, principalmente sobre política e economia brasileira e fora do país. Os conflitos no Oriente Médio, a ideologia capitalista em confronto com o socialismo, a ?Guerra Fria?, assuntos de medicina e tantos outros faziam parte das pautas, sempre acompanhadas pelo café árabe, aquele que é efeito sem coar. 


Só que este cenário raramente eu contava as minhas histórias. Já era uma concessão ficar ouvindo. Naquela época, anos 60, não era permitido crianças participarem das conversas dos mais velhos.

Nas conversas entre os homens o que me chamava atenção, era a eloquência de muitos deles, como defendiam com convicção os seus pensamentos. Era comum as vozes de alterarem na tentativa de persuadir o grupo sobre seu posicionamento em determinada área do conhecimento. Além disso, prestava atenção sobre o timbre das vozes, e como determinados tons vocais tinha predominância sobre outros, associado à mensagens lógicas, inteligentes e consistentes. Observava que timbres fortes próximos do grave, tinham presença marcante.


Esta foi uma característica adotada pelo rádio. Vozes graves para imprimir mais autoridade, pois, a ?comunicação presencial e interpessoal, matriz do processo de relações sociais, à medida que recebe o concurso da técnica, chegando ao que se denomina como a fase da comunicação coletiva, efetiva um novo modo de se compreender a comunicação na sociedade e especialmente neste século?. (SOUSA, 2006)


Já, segundo Mauro Sousa, 2006, a ?comunicação presencial e interpessoal, matriz do processo de relações sociais, à medida que recebe o concurso da técnica, chegando ao que se denomina como a fase da comunicação coletiva, efetiva um novo modo de se compreender a comunicação na sociedade e especialmente neste século.?


E você leitor deve ter muitas recordações, também, peço que reflita com serenidade, sem pressa, dando mais uma pausa neste leitura para trazer a memória sua trajetória de vida, ainda da primeira infância, nos cenários que você viveu.


Proponho que me acompanhe nesta jornada existencial.


No convívio familiar era frequente ouvir a declamação de belas poesias pelos meus tios, irmãos da vovó e pelos meus pais, o que certamente me motivaram a me interessar pelas inflexões, entonações das vozes com apurada técnica, própria daquela época, daquela cultura.

Minha mãe, Neusa Gil Cury, era poeta e meu pai, Getúlio Cury declamador de poesias. Ele apresentava na década de 50, pela Rádio Tingui ? Curitiba, um programa de declamação de poesias nominado, ?Acordes do Coração?. Aliás o nome do programa foi sugerido pela minha mãe.

A declaração de poesia é uma das atividades culturais mais eficazes para capacitamos a desenvolver nossa oralidade. Ela habilita transmitir com musicalidade, com melodia as nossas interações, determinando nossa capacidade de expressar a exata intencionalidade do que queremos comunicar.


Me lembro da inauguração da televisão em Curitiba em 1960.


Muitos poucos aparelhos disponíveis. Era um luxo ter uma televisão na sala de casa e este era o privilégio de um tio, Rafi Salum, irmão de minha avó paterna. Assim frequentemente íamos assistir TV na casa dele. Era um deslumbramento. Isso se dava o nome de televizinho. A programação de televisão iniciava lá pelas cinco da tarde e encarrava à meia noite.


Outra característica pessoal pouco comum das crianças daquela época, era o hábito de manter longas conversar com os adultos, incluindo os vizinhos, especialmente da terceira idade, como era o caso com compositor, músico e historiador Mário Rosa, conhecido como ?seo? Rosa. Ficávamos conversando por muitas horas, lembro-me que por vezes só percebia quanto o tempo passo ao crepúsculo do dia, ele debruçado na janela de sua casa que dava direto pra calçada e eu na calçada. Isso lá pelos meus 7 anos de idade e ele com os seus 70 e poucos anos.


Não era o único amigo esta faixa etária. Tinham outros tantos, como os ?seos? Wilson, Sidney, Zacarias, além dos amigos de meu pai, Getúlio e de meu avô Jorge.


O assunto geralmente era sobre futebol, mas também contavam muitas outras histórias.

Lembro-me com muito carinho das minhas primeiras professoras. A professora que era diretora do Grupo Escolar Professor Cleto da Silva em Curitiba, Ruth Shell. Ela tinha uma postura, para nós crianças de 7, 8 anos de idade que empunha respeito, autoridade. Quanto nos abordava, a gente ficava muito intimidado. Além dela, a professora Mirian Zarur. Está apesar da postura severa, tinha um tratamento especial para comigo, era o que chamávamos à época de ?peixinho?, traduzindo, o preferido da professora. Até hoje me vem à memória aquelas vozes femininas.


E você? Vamos lá, trazer a memória, como eram seus relacionamentos com os adultos, você conversava com eles? Se sim, lembra quais eram seus assuntos prediletos, se raramente, o que você ouvia e que lhe causava interesse? Você lembra dos seus professores, geralmente do gênero feminino?


Por estas tantas razões escolhe ser radialista e jornalista e em grande monta influenciada pela carreira profissional de meu pai, mas, sobretudo pela paixão pela comunicação humana. 

Com a decisão tomada de ser um comunicador, aos dezesseis anos tive a oportunidade de iniciar a carreira na Rádio Marumby de Curitiba, na função de rádio escuta.


O rádio escuta é uma atividade dentro do rádio esportivo que acompanhar os resultados parciais e finais dos jogos para plantão esportivo, Edson César Lopes ?o plantão de outro da cidade? informar aos ouvintes durante a jornada esportiva principal. 


Com isto, ainda que sem a intencionalidade de hoje, estava dando início no ano de 1972 a pesquisa sobre a oralidade ao ouvir a performance das mais variadas vozes da época, os grandes profissionais do rádio esportivo brasileiro.


Me dedicava por muitas horas do dia a ouvir os narradores esportivos da época, além dos comentaristas, repórteres e plantões procurando conhecer, compreender e analisar os estilos de cada profissional que transmitiam os jogos com muita precisão, emoção e qualidade artística admirável. Além dos estilos performáticos, identificava quais as escolas de que cada um pertencia, as expressões que usavam e como inflexionavam determinadas palavras que se constituíam nas suas marcas vocais, com seus bordões e jargões que facilmente eram identificados.

Em setembro de 1973 iniciei a carreira de repórter pela Rádio Cultura do Paraná. Atuava no programa ?Viva o Futebol? de Dirceu Graeser, consagrado profissional da música e do rádio esportivo, oportunidade que dei início, agora, a pesquisa de campo sobre oralidade no rádio e na televisão esportiva.


 Uma das minhas atividades era realizar entrevista com jogadores, treinadores, dirigentes e até torcedores após os jogos para repercutir no programa ?Viva o Futebol?.

Durante os jogos visitava seguidamente as cabines de rádio nos estádios para pesquisar e estudar as performances, principalmente dos narradores esportivos, mas também dos comentaristas, repórteres e plantões.


No ano seguinte atuei como entrevistados na TV Paranaense ? Canal 12, atual RPC - filiada a Rede Globo de Televisão, no programa "Domingo Alegre de Mário Vendramel", além iniciar a carreira de narrador esportivo na Rádio Marumby, sediada em Curitiba.


Apesar da permanente atuação no rádio e na televisão, darei um salto neste história destacando programas, como a "Gazeta do Rádio" pela Rádio Colombo do Paraná (1991); a premiação como "Repórter do Ano" pela promoção anual do jornal Diário Popular, pela atuação como repórter em defesa do consumidor no programa "Gente & Cia" da CNT TV (1993); a criação da Área de Rádio na Coordenadoria de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Paraná (1994) e a fundação a primeira agência de notícias voltada ao rádio no Paraná e a segundo no Brasil, a Central de Radiojornalismo (1996).


A pesquisa permanentemente realizada no meio rádio e na televisão gerou uma série de observações relevantes que subsidiaram a constituição da Economia da Oralidade. Entre os quais o uso de expressões chave, os bordões, jargões, metáforas e analogias, entre outras figuras de linguagem.


Buscamos extrair material de letras de músicas, poesia, prosa, trova e do humor com os seus personagens inesquecíveis.


Nasci sob os acordes das ondas hertzianas, vi a televisão surgir. Testemunhei a voz no seu célere percurso de boa parte da história, perpassando a diversas mídias. Do telefone a internet.

Confesso que hoje exerço a profissão com muito entusiasmo e por isso tenho sistematicamente me dedicado ao estudo, a pesquisa da palavra falada, o seu poder comunicacional, seus significados, suas manifestações, seus elementos, suas características, como se dá seu funcionamento e suas aplicações midiáticas, o que culminou com a constituição da Economia da Oralidade.


Após diversos oportunidades palestrando sobre temas de interesse das áreas de radiodifusão, radiojornalismo e mais recentemente sobre novas mídias, principalmente pelo intenso interesse em estudarmos e pesquisarmos permanentemente sobre os mais variados aspectos do poder comunicacional da palavra falada, decidimos em 2010 dar início a carreira de palestrante e consultor sobre o tema intitulado: Voice Design, O Poder da Palavra Falada Aplicada, o que em 2018 resultou na formulação da Economia da Oralidade.


Usando da analogia e da metáfora, afirmamos que inicialmente criamos o Voice Design com um "Planeta" no cosmos da comunicação humana, para posteriormente criarmos uma "Via Láctea" nominada de Economia da Oralidade onde todos planetas se movimentam harmoniosamente.


Estes estudos e pesquisas no campo da semiótica, da sintaxe, da semântica, da oralidade, da linguística, da fonologia, da fonética, da neurolinguística, da neurociência, da psiquiatria, da hipnose, da musicalidade, da sonoridade, da filosofia, da fisiologia, das mídias convencionais e digitais entre outras áreas da ciência, resultaram na constatação da necessidade de oferecer ao mercado por meio da Economia da Oralidade, conhecimento específicos, consciência plena e capacitação para exercer controle sobre os parâmetros desta modalidade da linguística.


Estas atividades compreendem a implantação de processos, serviços e atividades planejadas para atender a necessidade do público interno e externo da sua organização, considerando a fundamentalidade da comunicação interpessoal, relacional e intrapessoal no âmbito social, profissional e organizacional.


O crescimento e desenvolvimento do Voice Design, desde o início das pesquisas e estudos em agosto de 2008, se deu pelos resultados alcançados com realização de palestras, workshop, cursos e capacitações, a exemplo da participação no Educar/Educador 2013, entre os dias 22 a 25 de maio em São Paulo.


Na ocasião foi proferida palestra sobre o tema, além da realização de dez rodas de conversas com professores de diversas partes do país no estande de duas instituições educacionais ? o SEFE e Sem Fronteiras.


Com a aprovação de um trabalho científico pela comissão de análise e avaliação da ABED ? Associação Brasileira de Educação a Distância, sob o título, ?Voice design, o poder da palavra falada aplicada? esta área do conhecimento foi apresentada a comunidade científica e acadêmica durante o 19º Congresso Internacional de Educação a Distância, entre os dias 9 e 12 de setembro de 2013 em Salvador, que deu legitimidade a criação do Voice Design Desenvolvimento


Profissional. No 20o CIAED realizado em Curitiba em outubro de 2014 foi lançado Voice Design para Design Instrucional. E, em 2018 iniciou como economista os estudos e pesquisas voltadas a constituição da Economia da Oralidade.